Moralismo, uma forma de empobrecimento global

O recurso ao moralismo está profundamente instalado na cultura do debate nacional. Em várias mesas-redondas, a moral, quer venha da direita, quer venha da esquerda, instala-se como ponto central da análise, cobrindo os acontecimentos de uma rede de leitura que busca culpados e insuficiências, mais do que entender os processos que levaram à sua ocorrência. 

Esse moralismo tende a retirar-nos, no final, a capacidade de entender o mundo e de somar conhecimento ao que éramos quando entrámos na discussão. Em lugar de conquistarmos outras visões e bases que podem permitir um melhor entendimento das coisas, acabamos empurrados para cantos de um ringue onde nos calçam umas luvas, nos limpar o suor do rosto e esperam apenas que voltemos ao combate de olhos fechados. 

A tendência tem muitas faces. Pressente-se o moralismo em muitas das notícias que são lançadas em diferentes meios, por se basearem numa leitura que assume um pré-conceito do mundo onde vivemos - e que tão longe está da diversidade das muitas vidas que, nua mesma cidade, num mesmo país, podem florescer. Pressente-se também nas opiniões que sobem ao espaço mediático baseados num quadro de desenvolvimento de estatutos que pouco devem ao conhecimento. 

Quase nunca temos a possibilidade de escutar quem, num espaço de informação e debate, procure elucidar-nos das forças e fraquezas de cada decisão, baseando essa leitura no ponto de partida da mesma, oferecendo-nos uma ideia clara do percurso que se faz para cada medida tomada (seja no planeamento perante a pandemia, seja no caso das barragens da EDP, seja no que fôr). Também por isso, a cada passo, tornamo-nos mais pobres na forma de entender o mundo em que vivemos. Sabemos que umas vezes estamos a favor, outras vezes estamos contra, mas custa-nos a perceber e a explicar porquê.