Uma mulher de pé perante dois homens sentados

Em pé assume-se melhor aquilo que temos que assumir, pelo que não será vergonha nenhuma ficar de pé perante a injustiça ou de forma a assumir aquilo em que acreditamos. De alguma forma gostaria de ter visto Ursula von der Leyen manter-se em pé perante os dois homens que se sentavam. Diz, no entanto, o protocolo que é sentado que se discutem os elevados temas do mundo. E se sentado assim se faz, entre presidentes, que se encontrem as cadeiras necessárias para que o mundo possa ser discutido.

O que não pode acontecer é sentarem-se os dois presidentes homens e deixar-se a presidente mulher em pé, ou diminuída na sua posição num sofá ao lado. Não pode acontecer porque alguém quis que exatamente assim acontecesse, por se tratar de uma mulher. Não pode acontecer porque não é assim que se tratam os iguais - e de iguais se tratavam até ao momento em que ficou a mulher de pé, para diferentes se tornarem na forma como os dois homens se diminuíram e encolheram nas suas cadeiras, aos meus olhos cada vez mais pequenas, do tamanho da sua insignificante sensibilidade.

Senti-me perplexo tal como Ursula von der Leyen no momento em que viu Recep Erdogan assumir a sua pequena teatralidade, perante a insolente ignorância de Charles Michel - não há educação de topo, curso superior, experiência de governo ou pensamento liberal que prepare, pelos vistos, um indivíduo, para o dia em que tem que mostrar noção do lugar que ocupa, não só na cadeira, mas na vida de todos nós. E se a União Europeia se justifica, num esforço para desfazer polémicas, na importância do conteúdo perante a forma, talvez não esteja ciente de que, nos dias que correm, o conteúdo sem forma é exatamente como uma cadeira que falta na fotografia: faz toda a diferença.